Quando o Câmara Municipal de Curitiba recebeu a proposta da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2027 na última sexta-feira (15), o número que saltou aos olhos foi um só: R$ 16,393 bilhões. É um recorde histórico. A Prefeitura de Curitiba enviou o projeto eletronicamente ao Legislativo, sinalizando uma expansão significativa nos recursos disponíveis para a capital paranaense no próximo ano fiscal.
Mas calma antes de comemorar. O valor bruto impressiona, mas é preciso olhar para os detalhes. Sem contar as receitas intraorçamentárias — dinheiro que circula apenas dentro dos cofres municipais sem gerar novo ingresso real —, o orçamento líquido previsto é de R$ 15,502 bilhões. A diferença é sutil, mas crucial para entender quanto recurso fresco realmente entrará na economia local.
Onde vai parar cada centavo?
Aqui está a coisa interessante: a receita total estimada é de R$ 14,501 bilhões em receitas correntes, mais R$ 1 bilhão em receitas de capital e R$ 891 milhões em operações internas. Mas de onde vem esse dinheiro? A prefeitura calcula arrecadar R$ 9,093 bilhões por conta própria (o famoso "arrecadação própria"), o que representa 59% do total das receitas correntes. Isso mostra uma relativa autonomia financeira, embora ainda dependente de transferências.
As transferências federais somam R$ 2,393 bilhões (16%), enquanto as estaduais chegam a R$ 1,763 bilhão (12%). Além disso, há previsão de R$ 540 milhões em operações de crédito, ou seja, empréstimos contraídos pelo município, equivalentes a 3,5% do orçamento. Não é pouco, mas está dentro de limites controlados.
No lado dos gastos, a maior fatia cabe às despesas correntes: R$ 14,140 bilhões. Já as despesas de capital — aquelas que constroem obras, compram equipamentos e deixam legado físico — somam R$ 1,998 bilhão. Destaque especial para os investimentos puros: R$ 1,690 bilhão, representando 10,47% do orçamento total. Segundo dados divulgados pela CBN Curitiba, esse percentual pode ser arredondado para 10%, dependendo da base de cálculo utilizada, mas o montante absoluto permanece robusto.
Saúde e Educação lideram, mas Previdência preocupa
Se você acha que saúde e educação vão engolir tudo, está certo. São as funções que mais absorvem recursos. Saúde leva 22,7% do bolo, seguida por Educação com 19,7%. Juntas, elas respondem por mais de 42% do orçamento. Depois vem a Previdência Social (15,8%), Urbanismo (14,4%) e Administração (7,5%). Outros setores como assistência social, saneamento, gestão ambiental e segurança pública também têm previsões, embora sem percentuais detalhados nesta etapa inicial.
O ponto tenso? O Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). A prefeitura informou, em audiência pública, que prevê aportes de R$ 826 milhões para 2027. Esse número veio após uma "segregação de massa" realizada no final de 2025 — um ajuste técnico contábil que redefine o passivo previdenciário. Sim, soa burocrático, mas afeta diretamente a sustentabilidade financeira do servidor público curitibano a longo prazo.
E não podemos ignorar os precatórios. A dívida judicial, calculada a preços de 2026, tem referência de R$ 127 milhões para o próximo exercício. Os valores ainda estão sendo atualizados, então isso pode mudar. Mas já dá uma ideia do peso das obrigações legais pendentes.
Renúncias fiscais: quando o governo abre mão de dinheiro
Aqui entra um capítulo polêmico: as renúncias de receita. Em 2027, a prefeitura estima abrir mão de R$ 645,9 milhões. O que significa? Basicamente, isenções, reduções e benefícios fiscais concedidos a empresas ou cidadãos. A maior parte vem do IPTU e taxas (R$ 328 milhões), seguida pelo ISS (R$ 240 milhões). Há ainda R$ 13 milhões relacionados ao ITBI e R$ 64 milhões ligados a débitos tributários de dívida ativa.
É um volume considerável. Críticos argumentam que essas renúncias poderiam ser usadas para ampliar investimentos ou reduzir impostos de forma mais ampla. Defensores dizem que são necessárias para atrair negócios e aliviar a carga sobre setores específicos. O debate continua, mas os números agora estão na mesa.
Próximos passos: análise técnica e emendas
Com o protocolo eletrônico, o projeto começa a tramitar formalmente na Câmara. Primeiro, será analisado pelos órgãos técnicos do Legislativo e pela Comissão de Economia, Finanças e Fiscalização. Essa comissão decide se a proposta é admissível e viável orçamentariamente. Só depois disso os vereadores poderão apresentar emendas e votar em plenário.
O processo não é rápido. Leva semanas, às vezes meses. E durante esse período, grupos de interesse, movimentos sociais e especialistas terão oportunidade de influenciar o texto final. Vale ficar atento às audiências públicas e às discussões nas redes sociais, onde muitas vezes surgem as primeiras críticas e sugestões.
Perguntas Frequentes
Qual é o valor exato do orçamento de Curitiba para 2027?
O orçamento bruto estimado é de R$ 16,393 bilhões, conforme apresentado na LDO 2027 enviada pela Prefeitura de Curitiba à Câmara Municipal. Excluindo receitas intraorçamentárias, o orçamento líquido é de R$ 15,502 bilhões. Esses valores representam um recorde histórico para a cidade.
Quanto será investido em obras e infraestrutura?
Os investimentos puros somam R$ 1,690 bilhão, correspondendo a 10,47% do orçamento total. Esse valor inclui despesas de capital direcionadas a construções, aquisições de equipamentos e melhorias urbanas, distribuídas principalmente entre as funções de Urbanismo, Saneamento e Gestão Ambiental.
Como será financiada a previdência dos servidores públicos?
A prefeitura prevê aportes de R$ 826 milhões ao Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) em 2027. Esse valor foi calculado após uma segregação de massa realizada no final de 2025, que ajustou o passivo atuarial do regime. A previdência consome 15,8% do orçamento total.
O que são renúncias de receita e quanto valem?
Renúncias de receita são valores que o governo deixa de arrecadar devido a isenções fiscais, reduções de alíquotas e outros benefícios. Em 2027, a estimativa é de R$ 645,9 milhões, sendo R$ 328 milhões ligados ao IPTU e taxas, R$ 240 milhões ao ISS, R$ 13 milhões ao ITBI e R$ 64 milhões a débitos de dívida ativa.
Qual é o próximo passo para aprovação da LDO 2027?
Após o recebimento eletrônico, o projeto será analisado pelos órgãos técnicos da Câmara e pela Comissão de Economia, Finanças e Fiscalização. Eles avaliarão a admissibilidade e a viabilidade orçamentária. Depois, os vereadores poderão propor emendas e votar o texto em plenário, encerrando a fase legislativa inicial.