A defesa de Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entrou com um novo pedido urgente no Supremo Tribunal Federal (STF) para revogar a prisão preventiva dele. O argumento central é surpreendente: os advogados alegam que Henrique não tentou obstruir a Justiça, mas sim que foi "assediado" pela família de um homem conhecido como "Sicário".
O pedido chega logo após a Segunda Turma do STF ter mantido as prisões de Henrique e de seu primo, Felipe Vorcaro, em junho de 2026. A tensão no caso das fraudes do Banco Master está no auge, com a Polícia Federal (PF) interpretando conversas como tentativa de compra de silêncio, enquanto a defesa insiste que se tratava apenas de cobranças financeiras legítimas.
A versão da defesa: assédio, não suborno
Para entender o pedido, precisamos olhar para quem são os atores envolvidos. Na petição apresentada aos ministros, os advogados de Henrique sustentam que nunca houve intenção de comprar o silêncio de testemunhas ou familiares. Segundo eles, foram as pessoas ligadas à família de "Sicário" — especificamente uma mulher identificada como Joana Mourão — que buscaram contato com o entorno de Henrique.
Aqui está o ponto crucial: a defesa afirma que Joana Mourão teria "assediado" Thiago Assumpção, sócio e advogado de Henrique Moura Vorcaro. A palavra "assediado" aqui não tem conotação sexual, mas sim de pressão insistente e incomodativa. A tese é que ela cobrava pagamentos relativos a contratos firmados antes da morte de "Sicário", e não valores para impedir depoimentos.
"Nunca houve tentativa de compra de silêncio", diz a defesa textualmente. Eles argumentam que a iniciativa das aproximações partiu de Joana Mourão, que procurava receber valores que considerava devidos à sua família. Para os advogados, a PF cometeu um erro grave ao interpretar essas cobranças contratuais como parte de uma estratégia criminosa de controle de provas.
O que a Polícia Federal encontrou?
Do outro lado da moeda, a investigação federal conta uma história diferente. Os agentes da PF analisaram mensagens e contatos que, na visão deles, indicavam uma tentativa clara de obstrução das investigações. No contexto da Operação Compliance Zero, que apura as fraudes no sistema financeiro lideradas por Daniel Vorcaro, qualquer movimentação suspeita é vista com lupa.
Relatórios citados pelo programa "Oeste com Elas" sugerem que Henrique e Felipe Vorcaro atuavam no chamado "núcleo violento" da organização atribuída a Daniel. Além disso, há indícios de que Daniel teria tentado acionar altas autoridades, incluindo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, antes de ser preso. Há até menção a ordens para "moer" uma doméstica da atriz Monique Alfradique, o que sugere intimidação.
É nesse cenário de alta tensão que a interpretação das conversas com a família de "Sicário" se torna decisiva. Se for prova de corrupção, a prisão se justifica. Se for apenas uma disputa financeira antiga, o fundamento da custódia preventiva enfraquece.
A decisão dividida do STF
Em 16 de junho de 2026, a Segunda Turma do STF votou por 3 a 1 para manter as prisões preventivas de Henrique e Felipe. Os votos favoráveis à manutenção vieram dos ministros André Mendonça (relator), Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Apenas o ministro Gilmar Mendes discordou, propondo a substituição da prisão de Henrique por domiciliar e o relaxamento da de Felipe com medidas cautelares alternativas.
A divergência mostra quão delicada é a situação jurídica. Enquanto a maioria vê risco concreto à ordem pública e às investigações, Gilmar Mendes apontou falhas ou excessos na aplicação da medida mais drástica. Agora, com o novo pedido de revogação, o debate volta a aquecer nos corredores do Palácio do Planalto... ou melhor, do Palácio da Suprema Corte, em Brasília.
Falta de acesso às provas
Além da questão técnica sobre as conversas, a defesa levantou outro ponto sensível: a falta de transparência. Em nota divulgada anteriormente, os advogados afirmaram não ter acesso integral às provas que fundamentam a prisão. Eles alegam que essa limitação prejudica o exercício pleno do direito de defesa, criando um desequilíbrio processual.
"Não existem elementos concretos que justifiquem a continuidade da custódia cautelar", disseram os advogados ao InfoMoney. Essa reclamação é comum em casos complexos de lavagem de dinheiro e fraude financeira, onde segredo de justiça e sigilo bancário muitas vezes colidem com o direito de saber contra o que se está sendo acusado.
Próximos passos
O STF ainda não definiu quando analisará o novo pedido de revogação. Enquanto isso, Henrique e Felipe permanecem presos. A narrativa pública continua polarizada: de um lado, a acusação de uma rede criminosa sofisticada; do outro, a defesa de vítimas de interpretações equivocadas e pressões externas.
O caso do Banco Master continua sendo um dos mais vigiados do Brasil, envolvendo bilhões em supostas fraudes e figuras poderosas. Cada nova peça colocada na mesa pelo STF pode mudar drasticamente o rumo das investigações e o destino das famílias envolvidas.
Perguntas Frequentes
Por que a defesa diz que Henrique foi assediado?
A defesa alega que Joana Mourão, ligada à família de "Sicário", pressionou repetidamente Thiago Assumpção, advogado de Henrique, para cobrar pagamentos de contratos antigos. Eles argumentam que essa insistência foi mal interpretada pela PF como tentativa de suborno ou obstrução da justiça.
Qual foi a decisão do STF em junho de 2026?
Em 16 de junho de 2026, a Segunda Turma do STF manteve as prisões preventivas de Henrique e Felipe Vorcaro por 3 votos a 1. Os ministros André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques votaram pela manutenção, enquanto Gilmar Mendes propôs medidas menos severas.
Quem é "Sicário" neste caso?
"Sicário" é o apelido usado nas reportagens para identificar um homem cuja família estaria envolvida nas disputas financeiras mencionadas. Sua morte antecedeu os contratos em questão, e sua família, através de Joana Mourão, teria buscado pagamentos pendentes.
O que a Polícia Federal acusa Henrique e Felipe?
Eles são investigados por supostamente auxiliar Daniel Vorcaro na ocultação de recursos oriundos de fraudes no Banco Master. A PF também aponta que integrariam um "núcleo violento" e teriam tentado influenciar testemunhas e autoridades.
A defesa tem acesso a todas as provas?
Não. A defesa alega publicamente que não tem acesso integral às provas reunidas pela PF, o que, segundo eles, viola o direito de ampla defesa e impede uma contestação efetiva dos argumentos usados para justificar a prisão.